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Postado em 20/10/2017 3:53

Aventuras do único clube de futebol brasileiro que jogou 4 vezes na terra de Kim Jong-Un

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Waldir Cipriani/Arquivo pessoal
Pouca gente sabe, mas um pequeno clube de São Paulo, o Atlético de Sorocaba, foi o único time brasileiro a jogar até hoje na Coreia do Norte. Foram ao todo 4 partidas, entre 2009 a 2015, que levaram multidões ao estádio de Pyongyang em missões de paz e aproximação entre os povos.

Essa história mostra a trajetória de um pequeno clube que da terceira divisão do campeonato paulista em 2001 pulou para a primeira divisão em 2003 graças ao investimento maciço feito justamente por um norte-coreano que emigrou para o Brasil depois da guerra entre as duas Coreias nos anos 50, Sun Myung Moon, que se tornou conhecido no Brasil como Reverendo Moon, que ficou famoso por ter fundado uma seita que promovia casamentos coletivos, e também pelo seu tino empresarial e pela paixão pelo futebol, que o levou a apoiar o Cene, de Mato Grosso do Sul, além do Atlético de Sorocaba.

Apesar de anticomunista ferrenho, o reverendo mantinha boas relações com Kim Il-Sung, avô do atual líder Kim Jong-Un. Em 2009, com a inédita classificação da Coreia do Norte para a Copa do Mundo na África do Sul no ano seguinte, Moon teve a ideia de levar o Atlético de Sorocaba a realizar amistosos no país asiático, dentro do que classificou como missão de paz entre os povos.

Quem conta detalhes dessas histórias e do primeiro jogo do Sorocaba com a equipe norte-coreana, que serviria de base para a própria seleção asiática, é o então presidente do Sorocaba à época, Waldir Cipriani.

“A comitiva saiu do Brasil em novembro de 2009. Fomos até Pequim e lá conseguimos um visto de cinco dias para Pyongyang. Para nossa grande sorte, o então presidente Lula, em junho de 2009, havia estabelecido a embaixada brasileira em Pyongyang. Todo o corpo diplomático esteve no aeroporto para nos receber como se estivesse recebendo a Seleção Brasileira, e no dia seguinte treinamos no estádio Kim Il-Sun”, recorda.

Cipriani diz que a grande surpresa aconteceu no dia 5, quando a equipe se dirigiu ao estádio e teve que passar por uma multidão de 30 mil pessoas que se aglomeravam do lado de fora da arena, já ocupada por 80 mil espectadores.  Ele lembra que foi uma grande emoção para todos os jogadores, atletas muito simples, embora alguns já tivessem passado por clubes renomados, como o Santos. Entre as dificuldades, além do peso da responsabilidade em jogar diante dessa multidão, estava o fato de que o gramado era sintético, tipo de campo onde o Atlético de Sorocaba nunca havia jogado. O jogo chamou tanto a atenção da mídia que foi transmitindo ao vivo por várias emissoras, incluindo a televisão da FIFA.

O ex-presidente do Sorocaba lembra que no ano seguinte, na África do Sul, a Coreia do Norte acabou sendo sorteada para integrar o mesmo grupo do Brasil. Quando houve o jogo entre as duas seleções, os norte-coreanos perderam por dois a um. No lendário jogo do dia 5 de novembro, Cipriani lembra que uma das maiores surpresas foi constatar como os dois times foram apresentados no placar eletrônico. “Lá (no placar) estava DRK (República Democrática da Coreia) e no outro lado estava BRA (de Brasil), porque jogamos de amarelo!”

Equipe do Atlético de Sorocaba junto à estátua de Kim Jong-il em Pyongyang em 2009
WALDIR CIPRIANI/ARQUIVO PESSOAL
Equipe do Atlético de Sorocaba junto à estátua de Kim Jong-il em Pyongyang em 2009

Em 2010, na segunda viagem, o Sorocaba não teve tanta sorte. Perdeu de um a zero, com um gol de pênalti absurdamente inexistente, marcado pelo árbitro, que era norte-coreano. Naquele ano, a equipe também fez mais duas partidas amistosas: em Pequim e em Khabarovsk, no Extremo Oriente russo, em 30 de dezembro, contra o CSKA.

Fora do campo, toda a equipe e a comissão técnica do Sorocaba fizeram vários passeios pela cidade e seus arredores. Ao contrário do que divulga a mídia ocidental, Cipriani diz que em momento algum se sentiu constrangido ou cerceado pelas autoridades norte-coreanas. O ex-presidente do clube garante que conversou normalmente com as pessoas na rua, posou para fotos e, apesar do cerimonialismo típico dos orientais, sentiu-se benvindo em todas as ocasiões.

“Eu falo coreano, mas procurei me fixar no esporte. Caminhei horas pelas ruas de Pyongyang sem problema nenhum. Ao chegar, representantes do governo ficaram com meu passaporte, mas fiquei com minha máquina fotográfica. Caminhei de duas a três horas, entrei em pequenos mercados. O brasileiro é muito bem recebido, na Rússia, na China, na Coreia do Norte. Nossas viagens tiveram pelo menos um dia de passeio dirigido, quando éramos conduzidos por um ônibus e funcionários do governo que falavam espanhol”, diz o ex-dirigente do Sorocaba.

Cipriani garante que a comitiva brasileira não teve qualquer problema com alimentação na Coreia do Norte, embora, por precaução, tivessem comprado muitos alimentos em Pequim antes do embarque para Pyongyang. Além disso, o dirigente afirma que as compras para o lanche da tarde e da noite eram feitas nos supermercados das embaixadas, embora não tivesse notado qualquer problema de abastecimento nas lojas abertas ao público.

Fora do futebol profissional desde o final de 2016, o Atlético de Sorocaba ainda mantém um centro de treino que é considerado um dos mais modernos do país, e que chegou a abrigar a seleção da Argélia na Copa de 2014. Com a morte do reverendo Moon em setembro de 2012, a situação financeira do clube foi se agravando paulatinamente, o que obrigou o Sorocaba a se desligar da Federação Paulista. Por ironia, o centro do Sorocaba é utilizado hoje pelo seu maior rival na cidade, o São Bento, que subiu há pouco da série C para a B do Brasileirão. Seu técnico Paulo Roberto (de novo a ironia) era um dos jogadores do Sorocaba na lendária partida de 2009 na Coreia do Norte

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