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Postado em 02/10/2017 3:01

Universidade de Brasília: Para lembrar e entender

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Conjugar memória e tempo histórico foi o que fez o professor Jaime G. de Almeida ao editar o seu livro “Universidade de Brasília: Ideia, diáspora e individuação”, recém-publicado pela Editora UnB.

Por Inês Ulhôa

“A necessidade da memória é uma necessidade da história”, disse o historiador Pierre Nora[1]. Segundo ele, a memória é a vida, “sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento”. Ao relacionar tempo histórico e memória em sua obra, o professor Jaime Almeida traz à reflexão fatos e histórias não contadas ou que valem a pena serem recontadas.

É bom que se destaque que, consciente da importância de se provocar a memória de indivíduos que permite traduzir uma interpretação histórica, Almeida possibilita também a compreensão da tragédia que se abateu sobre a Universidade de Brasília nos tempos sombrios do regime ditatorial no Brasil advindos com o golpe militar em 1964.

Publicado com a evidente intenção de registrar os rumos e perspectivas da UnB, em especial da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em seus anos iniciais, é que o conteúdo de “Universidade de Brasília: Ideia, diáspora e individuação” possui grande valor para a história. Nele, o autor realçou os princípios que nortearam o projeto acadêmico e institucional da UnB.

Além da vontade, as dificuldades

Evidente que o autor encontrou dificuldades para concluir esta tarefa, com risco de grave simplificação, pois, segundo ele, a UnB carece de história escrita. Soma-se a essa dificuldade “a falta de registro adequado de grande parte das manifestações dos agentes que participaram ativamente da sua história”. O autor alerta ainda que, para agravar essa situação, “a documentação elaborada pelas associações não se encontra editada adequadamente. Além do mais, os textos divulgados apresentam uma preocupação jornalística com os pormenores dos acontecimentos sem se aterem aos significados dos fatos”.

Entretanto, Almeida soube construir um enredo significativo, compreendendo acertadamente que a memória é também social coletiva, na perspectiva que apontou Halbawchs, segundo o qual, o homem se caracteriza essencialmente por seu grau de interação no tecido das relações sociais. Ele aponta que “nossas lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que se trate de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos. Isto acontece porque jamais estamos sós”[2].

Nesse sentido, a despeito das dificuldades apontadas, Almeida se inseriu na profundidade daquele período histórico não apenas na experiência vivenciada por ele, mas também na reflexão de diversos sujeitos sociais nos quais buscou testemunhos para configurar o seu estudo.

Assim, na tessitura da utopia de uma universidade nova, democrática e participativa, muitos foram personagens, alguns mais apaixonados que outros, mas, mesmo assim, participantes ativos desse projeto que se viabilizou pelos ideais de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. Jaime Almeida conta, então, uma parte da saga que foi construir a UnB. De acordo com o autor, há muitas respostas para a indagação de como explicar a UnB hoje. É como ele vai mostrar nesta obra, que, por si só, é o passado que se faz presente.

Para a indagação acima, o autor apresenta duas explicações: uma reflexiva (ensaio) e outra testemunhal (memória). Na primeira explicação, Almeida traz uma inovação ao narrar a história da instituição em três tempos. O primeiro é o da “Ideia”, onde ele reconstitui “o tempo de entusiasmo, a paixão coletiva, com a inauguração do campus guiada por uma utopia”. O segundo tempo se refere à “Diáspora”, caracterizado pelo pedido de demissão em protesto da maioria de seus professores em 1965, quando, já sob intervenção militar, a administração da Universidade demite alguns professores considerados ideologicamente suspeitos ou acusados de cumplicidade com a “subversão estudantil”. Em resposta, 223 professores pedem demissão coletiva. O terceiro tempo é o da “Individuação” das unidades acadêmicas, “tempo de apartação acadêmico-espacial e do ressurgimento do pragmatismo, quando os agentes que lutaram pela reconstrução do sentido da Universidade acabaram se perdendo no emaranhado de suas convicções e disputas”, assinala o autor.

As ideias e os fatos

Ao adentrar nos depoimentos de ex-professores e ex-estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo – uma das grandes qualidades desta obra –, vamos perceber como a memória é de fato elemento importante para o processo de identificação das pessoas com a sua história e a sua cultura. Ao publicar os depoimentos colhidos ainda no ano de 1983 pelo grupo constituinte do Projeto Memória do Ensino de Arquitetura e Urbanismo na UnB, o autor recompõe a relação entre o presente e o passado, compreendida a partir da construção da interpretação histórica deste período.

Por tudo isso, o livro de Jaime G. de Almeida torna-se uma referência para o debate a respeito de como a memória, como valor histórico, é transmitida. Uma análise necessária para compreender os ideais que credenciaram a Universidade de Brasília a despontar como liderança por sua inovação em seu projeto pedagógico e como vítima do Estado autoritário que desvirtuou o projeto originário. Em que pese a Universidade ter sido ultrajada pela força policial militar, a julgar pelos depoimentos contidos nesta obra, foi também espaço privilegiado para observar as ricas ideias que ali germinaram em nome de um projeto novo de universidade.

________________

[1] NORA, Pierre. Entre memória e história: A problemática dos lugares. In Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História. PUC/SP, nº 10, dez./1993, pp.7-28. www.pucsp.br/projetohistoria/downloads/revista/PHistoria10.pdf. Acesso em 13/09/2011

[2] HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro Editora, 2011, 2ª. edição, 5ª. Reimpressão, p.30.

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