Início Opinião 13 vezes mais racismo: a marca vergonhosa desta Copa

13 vezes mais racismo: a marca vergonhosa desta Copa

Foto: Reprodução/Redes sociais

Por Zulu Araújo – Ex-presidente da Fundação Palmares

O maior evento de futebol de todos os tempos ganhou uma marca. Uma marca nada agradável e absolutamente condenável. O aumento dos ataques racistas durante esta Copa do Mundo é impressionante: segundo os dados divulgados pela própria FIFA, identificados por meio do (Serviço de Proteção às Redes Sociais, houve um crescimento treze vezes maior de mensagens racistas nesta Copa em relação ao último mundial.

Foram mais de 10.000 ataques racistas identificados até o momento, tendo como alvos principais, jogadores e torcedores. Quase todos os países foram alvejados, mas, os grandes alvos tem sido jogadores africanos e/ou afrodescendentes, que jogam em equipes europeias.

A situação ficou tão grave que extrapolou os gramados do futebol e entrou nas esferas governamentais e diplomáticas. Países como a Espanha, Argentina e Paraguai tiveram autoridades governamentais envolvidas diretamente nesses atos, condenáveis sobre todos os aspectos.

Alguns episódios preocupam e chamam a atenção, a exemplo do comportamento dos torcedores argentinos, que tem se esmerado nos atos racistas durante os jogos da sua seleção, fato este que motivou uma investigação oficial da FIFA.

É bem verdade, que o racismo na Argentina não começou no futebol, nem em sua torcida, nem muito menos na Copa do Mundo de 2026. O racismo na Argentina, possui uma longa tradição, particularmente contra populações afrodescendentes e indígenas, além do forte preconceito contra imigrantes de países vizinhos, especialmente bolivianos, paraguaios e peruanos.

A fala da vice-governadora da província argentina de Mendoza, Hebe Casado, que foi declarada persona non grata pela Embaixada da França, após ela chamar a seleção francesa de “time africano mal-educado”, não deixa dúvidas nesse sentido.

Uma das vítimas do racismo argentino na Copa, foi o influenciador norte americano IShowSpeed, Darren Jason Watkins Jr., agredido duramente (várias vezes), com expressões racistas quando celebrava os gols das seleções africanas (Cabo Verde e Egito). Foi xingado, hostilizado, chamado de macaco e que voltasse para a África, apesar de ter nascido nos EUA, onde se realiza a Copa.

No campo diplomático a França protagonizou reações fortes tanto contra uma senadora do Paraguai Celeste Amarilla que proferiu insultos racistas contra o jogador francês, Kylian Mbappé, assim como contra o ex – Presidente da Espanha Mariano Laroy, que afirmou num artigo que a seleção francesa é boa, mas que não possui jogadores franceses, referindo-se aos jogadores de descendência africana.

No caso espanhol, o governo francês reagiu como um todo: o ministro do Interior, Laurent Nuñez (descendente de espanhol) afirmou – “Existe apenas uma França, uma república onde todos podem encontrar o seu lugar, independentemente da sua origem.”, a ministra da Luta contra as Discriminações, Aurore Bergé, disse “É hora de eles pararem e de o esporte voltar a ser esporte: um lugar onde as pessoas são julgadas pelo seu talento e por nenhum outro critério, além da ministra da Ultramar Naïma Moutchou, do líder do Partido Socialista Francês, Olivier Faure e da Embaixada da França na Espanha, todos repudiando duramente o comentário do ex-presidente espanhol.

Lamentavelmente a FIFA tem sido tímida no enfrentamento do racismo no futebol, fato este que tem estimulado o aumento desses casos não apenas na Copa do Mundo. As reações são meramente protocolares, por meio de Notas Públicas: “A Fifa condena veementemente o racismo, o ódio e a discriminação em todas as suas formas. Essas ações não têm lugar no futebol, na Copa do Mundo da Fifa ou em qualquer lugar da sociedade”.

Enfim, é fundamental que as autoridades, órgãos e entidades esportivas, veículos de comunicação e instituições de direitos humanos se manifestem e exijam que a FIFA adote medidas severas contra esse tipo de comportamento para que não sirva de estímulo a outras manifestações semelhantes.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

Sobre o autor

Zulu Araújo é Gestor Cultural, Arquiteto, Mestre em Cultura e Sociedade e Doutor em Relações Internacionais/UFBA. Ex-Presidente da Fundação Cultural Palmares/MinC.