Quase quatro anos após o fim do governo de Jair Bolsonaro (PL), 18 integrantes da gestão e auxiliares do ex-presidente cumprem pena, respondem a processos judiciais ou são investigados pela polícia. Segundo levantamento da Folha, a maioria dos casos envolve acusações de crimes ou irregularidades relacionadas ao período de 2019 a 2022. Outros estão ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, com transações mais intensas em 2024 e 2025.
No governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seis pessoas que ocuparam cargos em ministérios, na presidência de autarquias ou em uma empresa estatal são alvo de investigações ou processos. De acordo com o levantamento, três casos estão relacionados a fatos ocorridos durante o atual mandato, iniciado em 2023, enquanto os demais envolvem suspeitas de irregularidades anteriores ao governo.
Entre os casos ligados à gestão Bolsonaro estão as condenações por tentativa de golpe de Estado. O próprio ex-presidente, ex-ministros, ex-integrantes de órgãos públicos e militares foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Parte deles cumpre pena em prisão domiciliar, unidades militares ou estabelecimentos prisionais, enquanto Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), está foragido nos Estados Unidos, segundo as informações reunidas pela reportagem.
Outras investigações envolvem a atuação de ex-integrantes do governo durante a pandemia de Covid-19. O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello responde a uma ação de improbidade administrativa apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), que aponta prejuízo de R$ 122 milhões aos cofres públicos. O órgão afirma que Pazuello deixou de adquirir vacinas para imunizar a população em 2020 e optou por medicamentos sem eficácia contra a doença. A defesa sustenta que não havia provas a produzir e que a ação é improcedente.
Também relacionado à pandemia, o senador eleito Rui Costa (PT), ex-ministro da Casa Civil de Lula e ex-governador da Bahia, é investigado pela compra de respiradores pelo Consórcio Nordeste, que presidia à época. O grupo realizou um pagamento antecipado de R$ 48,7 milhões, mas os equipamentos não foram entregues. A investigação tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ), e a defesa de Costa afirma que a aquisição ocorreu em um contexto de emergência e que busca celeridade no processo.
Na área ambiental, o ex-presidente do Ibama Eduardo Fortunato Bim e o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles foram investigados em um caso relacionado à flexibilização de regras para exportação de madeira. Segundo a investigação da Polícia Federal (PF), o esquema envolveu o contrabando de toras para o exterior, em um total de 3.000 cargas. A ação penal no STF tem 21 réus. Em julho, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a absolvição de sete deles, incluindo Salles, por falta de provas, enquanto reforçou os indícios de crime em relação aos demais.
No governo Lula, entre os casos de maior repercussão está o do ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida, denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por importunação sexual contra a então ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. O processo tramita sob sigilo no STF e ainda não havia decisão sobre o recebimento da denúncia, conforme o levantamento. Almeida nega ter cometido crime e afirma ter sido alvo de intriga política.
O ex-ministro das Comunicações Juscelino Filho também foi denunciado pela PGR, em 2025, por suspeita de corrupção e desvio de emendas parlamentares em fatos anteriores à sua passagem pelo ministério. Ele afirma ser inocente e ressalta que uma denúncia não significa culpa. Os dois ex-ministros deixaram seus cargos em meio às acusações.
Casos ligados ao governo Bolsonaro
- Jair Bolsonaro, ex-presidente: condenado por golpe de Estado, cumpre pena em prisão domiciliar. Nega ter comandado um esquema para dar um golpe.
- Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e da Defesa: condenado por golpe de Estado, cumpre pena em uma unidade militar no Rio de Janeiro. Nega a acusação.
- Paulo Sérgio de Oliveira, ex-ministro da Defesa: condenado por golpe de Estado, cumpre pena em uma unidade militar em Brasília. Diz que não agiu para dar um golpe e que temia uma fissura nas Forças Armadas.
- Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI): condenado por golpe de Estado, cumpre pena em prisão domiciliar. Nega participação em atos golpistas.
- Anderson Torres, ex-ministro da Justiça: condenado por golpe de Estado, cumpre pena na Papudinha, em Brasília. A defesa propõe revisão criminal e nega participação em golpe.
- Almir Garnier, ex-comandante da Marinha: condenado por golpe de Estado, cumpre pena em uma unidade militar em Brasília. Nega a tentativa de golpe e afirma ter histórico de conduta ilibada.
- Alexandre Ramagem, ex-presidente da Abin: condenado por golpe de Estado, está foragido nos Estados Unidos. Diz que não participou de uma trama golpista.
- Silvinei Vasques, ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF): condenado por golpe de Estado, cumpre pena na Papudinha. Nega participação na trama e diz que não interferiu nas eleições de 2022.
- Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro: condenado por golpe de Estado, teve parte da pena abatida por ser delator e cumpre pena em regime aberto. Declarou que o Exército cumpriria um golpe se houvesse decreto de Bolsonaro.
- Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil: investigado pela PF por suposto recebimento de mesada de R$ 500 mil de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Foi alvo de busca e apreensão e teve bens apreendidos e bloqueados. Diz que a operação foi uma tentativa de manchar sua honra.
- Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações: investigado pela PF por sua proximidade e atuação com Vorcaro. É citado em conversas de WhatsApp extraídas do celular do ex-banqueiro. Nega irregularidades nas conversas e ilicitudes em atividades que afirma serem da iniciativa privada.
- Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde: responde a ação de improbidade administrativa relacionada à condução da pandemia, com acusação de prejuízo de R$ 122 milhões aos cofres públicos. A defesa decidiu não produzir provas e afirma que ele agiu corretamente durante a pandemia.
- José Carlos Oliveira, ex-ministro do Trabalho e Previdência: indiciado pela PF por suposta participação no esquema de desvio de dinheiro de aposentados do INSS. Foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Nega participação em fraudes e ligação com entidades envolvidas.
- Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação: réu em processo por homofobia. A defesa recorreu ao STJ contra a acusação. Ele pediu desculpas por declarações e nega ter cometido crime.
- Eduardo Bim, ex-presidente do Ibama: réu em ação penal por suspeita de contrabando ilegal de madeira. O processo está em alegações finais no STF, e a PGR reforçou os indícios de culpa. Bim afirma que a denúncia foi apresentada prematuramente, sem esclarecimento de pontos importantes.
- Pedro Guimarães, ex-presidente da Caixa Econômica Federal: réu em processo por assédio sexual contra mulheres. O caso está na fase de oitiva de testemunhas. A defesa afirma que o processo é sigiloso e não se manifesta.
- Mário Frias, ex-secretário de Cultura: investigado pela PF por suspeitas envolvendo emendas destinadas a uma entidade ligada ao filme Dark Horse, sobre Bolsonaro. Foi alvo de medidas de busca e apreensão em setembro. Diz colaborar com as investigações e acredita que o caso será arquivado.
- Marcelo Xavier, ex-presidente da Funai: condenado pela Justiça por perseguição a servidores e indígenas. Recorreu da condenação e não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Casos ligados ao governo Lula
- Silvio Almeida, ex-ministro dos Direitos Humanos: denunciado pela PGR por importunação sexual contra a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco. O processo é sigiloso no STF e ainda não havia decisão sobre o recebimento da denúncia. Diz ter sido alvo de intriga política e nega ter cometido crime.
- Juscelino Filho, ex-ministro das Comunicações: denunciado pela PGR por suspeita de corrupção e desvio de emendas. O processo é sigiloso no STF e ainda não havia decisão sobre o recebimento da denúncia. Afirma ser inocente e diz que a apresentação de uma denúncia não significa culpa.
- Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil: investigado pela compra de respiradores durante a pandemia, quando era governador da Bahia. O caso passou pelo STJ e pelo STF e voltou ao STJ, onde está em fase de cumprimento de diligências. Diz buscar celeridade para comprovar sua inocência.
- Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência: recebeu repasses e teve despesas pessoais pagas por um lobista que buscava órgãos do governo e era ligado ao filho mais velho do presidente. A PF pretende ouvi-lo em um dos inquéritos sobre tráfico de influência. Afirma que o repasse foi um empréstimo pessoal já quitado.
- Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS: indiciado pela PF por suposta participação no esquema de desvio de dinheiro de aposentados. Foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva e está preso preventivamente. A defesa afirma que não há elementos que demonstrem vínculos com os recursos investigados e diz que a PGR propôs sua soltura.
- Fernando Pimentel, presidente da Empresa Gestora de Ativos (Emgea): é investigado em uma ação penal sigilosa por corrupção e lavagem de dinheiro, remanescente de uma operação policial de 2015. O caso passou pelo STF e foi encaminhado à Justiça Federal em Brasília. Ele sempre negou as acusações.
