O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne nesta quarta-feira (19) e deve anunciar um novo aumento da taxa básica de juros (Selic), elevando-a de 13,25% para 14,25% ao ano.
Caso confirmada, a decisão levará a Selic ao maior patamar desde agosto de 2006, quando atingiu 14,75% ao ano, ainda no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Será o quinto aumento consecutivo na taxa, que serve de referência para os juros cobrados no Brasil.
A decisão do Copom reflete a preocupação do Banco Central com a inflação em um cenário de economia aquecida. Ao elevar os juros, o BC busca frear a demanda por crédito e desacelerar a atividade econômica, controlando assim a pressão sobre os preços. O anúncio oficial está previsto para o fim da tarde.
Horas antes, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, também anunciará sua decisão sobre a taxa de juros americana. A expectativa é que os juros sejam mantidos no intervalo entre 4,25% e 4,50% ao ano.
Nos EUA, os investidores monitoram os efeitos das tarifas comerciais impostas pelo ex-presidente Donald Trump a produtos importados, que podem impactar a inflação e a atividade econômica.
Segunda reunião de Galípolo à frente do BC
Esta será a segunda reunião do Copom sob o comando de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central indicado por Lula e empossado em janeiro deste ano. Também será o segundo encontro em que os diretores nomeados pelo governo federal são maioria no colegiado, assumindo a responsabilidade direta pela decisão tomada.
Desde 2021, com a autonomia operacional do BC aprovada pelo Congresso, os diretores da instituição passaram a ter mandatos fixos. Até o fim de 2024, a maioria da diretoria era composta por indicados do ex-presidente Jair Bolsonaro, incluindo o então presidente Roberto Campos Neto.
Inflação e metas
O aumento da Selic pretende conter as pressões inflacionárias. Em fevereiro, a inflação oficial atingiu 1,31%, o maior patamar para o mês desde 2003 e o maior nível desde março de 2022, quando os preços subiram 1,62%. No acumulado em 12 meses, a inflação chegou a 5,06%, o maior índice desde setembro de 2023.
A taxa básica de juros é o principal instrumento do BC para controlar a inflação, que afeta principalmente a população mais pobre. O Banco Central opera com base no sistema de metas de inflação, que, a partir de 2025, será contínuo, com objetivo de 3% e tolerância entre 1,5% e 4,5%. As decisões sobre a Selic são tomadas com base nas projeções futuras, já que os efeitos das mudanças na taxa demoram de seis a 18 meses para impactar a economia.
Desafios e críticas
Entre os fatores que pressionam a inflação, o BC destaca a resiliência da atividade econômica, o mercado de trabalho aquecido, o aumento dos gastos públicos e o cenário internacional, que tem valorizado o dólar.
Diogo Guillen, diretor de Política Econômica do BC, afirmou que uma desaceleração da economia é necessária para reduzir a inflação. Dados do PIB do quarto trimestre de 2024 já mostram sinais de moderação.
No entanto, a estratégia de elevar os juros tem sido criticada por autoridades do governo federal. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, classificou a medida como “imbecilidade”, argumentando que frear o crescimento econômico para controlar a inflação é prejudicial.
Impactos da alta da Selic
A elevação da Selic tende a gerar efeitos significativos na economia brasileira, como:
- Juros bancários: Aumento das taxas cobradas em empréstimos e financiamentos. Em janeiro de 2025, a taxa média de juros para pessoas físicas e empresas atingiu 42,3%, o maior nível em 16 meses.
- Crescimento econômico: Redução do consumo e dos investimentos produtivos, impactando negativamente o PIB, o emprego e a renda.
- Contas públicas: Aumento das despesas com juros da dívida pública, que somaram R$ 950 bilhões em 2024 (8% do PIB).
- Aplicações financeiras: Maior atratividade para investimentos em renda fixa, como Tesouro Direto e debêntures, em detrimento do mercado acionário.
A decisão do Copom será crucial para definir os rumos da economia brasileira nos próximos meses, em um cenário de desafios inflacionários e pressões políticas.
