A morte do guia turístico Victor Cerqueira, conhecido como Vitinho de Luzia, durante uma operação policial em Caraíva, distrito de Porto Seguro no extremo-sul da Bahia, revoltou moradores e levou à criação de uma campanha por justiça que já reúne mais de 27 mil assinaturas. O jovem negro de 28 anos, descrito por amigos e familiares como trabalhador e honesto, foi morto no último sábado (10) em circunstâncias que apontam para erro policial, tortura e possível obstrução de provas.
Victor, funcionário de uma pousada local, saiu por volta das 17h para buscar hóspedes à beira do rio Caraíva quando foi surpreendido por uma operação que visava cumprir mandados contra integrantes do tráfico. Testemunhas relatam que ele foi algemado vivo e levado apenas de bermuda e descalço. Seu corpo foi encontrado horas depois no Instituto Médico Legal com múltiplos sinais de tortura e execução.
A versão oficial da Secretaria de Segurança Pública da Bahia afirma que a operação resultou na morte de dois suspeitos após confronto, mas moradores e familiares contestam essa narrativa. Eles alegam que Victor foi confundido com outro homem apelidado também de “Vitinho” – João Vitor Sampaio de Souza, segurança de traficantes e verdadeiro alvo da operação, que segue foragido.
A indignação cresce com relatos de que câmeras de segurança foram desligadas antes da ação e que policiais recolheram imagens de estabelecimentos comerciais, dificultando a apuração dos fatos. A família destaca que dias antes da morte, Victor havia registrado boletim de ocorrência por racismo após ser injustamente acusado de furto, evidenciando um histórico de perseguição.
O caso ocorre em um estado que lidera os índices de letalidade policial no país. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a Bahia responde por 22,77% das mortes por intervenção policial no Brasil, com vítimas majoritariamente negras. Em 2021, das 299 pessoas mortas pela polícia em Salvador, apenas uma era branca.
Samuel Vida, professor da Universidade Federal da Bahia e especialista em relações raciais, critica a política de segurança do governo estadual: “O PT transformou seu governo na locomotiva do genocídio negro no Brasil”. Ele denuncia a resistência em adotar medidas como câmeras corporais, apesar de recomendações de entidades de direitos humanos.
Enquanto isso, a comunidade de Caraíva – incluindo indígenas, quilombolas e empresários locais – mantém a pressão por respostas. Manifestações diárias e a campanha virtual buscam evitar que o caso seja arquivado, como tantos outros. “Era um homem honesto. O que ocorreu foi uma execução”, afirma a família, que exige responsabilização pelos fatos.
A morte de Vitinho de Luzia expõe não apenas mais um possível caso de violência policial, mas a dura realidade de um estado onde jovens negros são mortos a uma média de quatro por dia – muitas vezes sem que seus nomes ganhem as manchetes ou que suas histórias sejam contadas. A mobilização em Caraíva tenta garantir que, desta vez, a justiça prevaleça.
