Início Saúde Estudo com ratos sobre omeprazol gera alerta, mas especialista pede cautela

Estudo com ratos sobre omeprazol gera alerta, mas especialista pede cautela

Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Manchetes recentes nas redes sociais e em alguns portais reacenderam o debate sobre a segurança do omeprazol, ao sugerirem que o uso prolongado do medicamento poderia provocar problemas ósseos, anemia e até aumentar o risco de câncer. As afirmações tiveram como base um estudo brasileiro realizado em ratos, publicado na revista científica ACS Omega. No entanto, para especialistas, a interpretação alarmista dos dados não encontra respaldo na ciência.

A gastroenterologista e hepatologista Lourianne N. Cavalcante, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ex-presidente da Sociedade de Gastroenterologia da Bahia, afirma que é preciso cautela antes de extrapolar os resultados do estudo para a população humana.

“O primeiro ponto que precisa ficar claro é que estamos falando de um estudo experimental em animais, que serve para levantar hipóteses, não para decretar riscos clínicos em humanos”, explica a médica.

Medicamento amplamente utilizado e estudado

O omeprazol faz parte da classe dos inibidores da bomba de prótons (IBPs), medicamentos usados há décadas no tratamento de gastrite, refluxo, úlceras e outras doenças gastrointestinais. Segundo Lourianne, trata-se de uma das classes mais prescritas no mundo, justamente por sua eficácia e segurança.

“São medicamentos bem estudados. Quando utilizados corretamente, dentro da indicação e pelo tempo adequado, apresentam um perfil de segurança sólido”, destaca.

O que o estudo observou

O trabalho citado analisou ratos submetidos ao uso de omeprazol por até 60 dias e identificou alterações laboratoriais discretas, como pequenas reduções nos níveis de hemoglobina e variações em minerais. Para a especialista, esses achados não indicam, por si só, danos clínicos relevantes.

“Não houve anemia clínica, não houve comprovação de perda óssea e nem avaliação funcional da absorção de nutrientes. Transformar esses dados em conclusões alarmantes é um equívoco científico”, afirma.

Limitações na comparação com humanos

Lourianne ressalta que estudos em animais são importantes, mas têm limites claros. “Ratos não são versões reduzidas de humanos. Eles têm pH gástrico diferente, metabolismo mais rápido e mecanismos distintos de absorção de ferro, cálcio e vitamina B12”, explica. Além disso, as doses utilizadas nos experimentos não correspondem, necessariamente, às prescritas para pacientes.

“Sem equivalência de dose e contexto clínico, qualquer comparação direta é frágil”, completa.

O que dizem os estudos em pessoas

Em relação à saúde óssea, a médica explica que pesquisas em humanos não demonstram uma relação direta entre o uso de omeprazol e perda óssea significativa. “Quando existe alguma associação com fraturas, ela costuma estar ligada a fatores como idade avançada, fragilidade e uso de outros medicamentos, e não ao IBP isoladamente.”

Sobre anemia, Lourianne pondera que a redução da acidez gástrica pode interferir na absorção de ferro, mas isso raramente se traduz em anemia clinicamente relevante. “Em adultos saudáveis, os estudos não mostram queda importante de hemoglobina. Quando ocorre anemia, geralmente é multifatorial.”

Vitamina B12, magnésio e câncer

A deficiência de vitamina B12 associada ao uso prolongado de IBPs é considerada rara e mais comum após anos de tratamento, especialmente em idosos. “É um efeito monitorável e facilmente corrigido com suplementação”, explica.

Já a redução de magnésio no sangue pode acontecer, mas em casos pouco frequentes. “Está relacionada a uso muito prolongado, predisposição individual e uso de vários medicamentos ao mesmo tempo”, diz.

Sobre o risco de câncer, a especialista é categórica: “Não existe evidência científica de que o omeprazol cause câncer em humanos. Essa hipótese já foi amplamente investigada e descartada. As associações antigas estavam ligadas à infecção por Helicobacter pylori não tratada, e não ao medicamento.”

O verdadeiro problema: uso sem orientação

Para Lourianne Cavalcante, o foco do debate deveria ser o uso indiscriminado do omeprazol. “No Brasil, muitas pessoas utilizam IBPs diariamente por meses ou anos sem diagnóstico e sem acompanhamento médico. Isso pode mascarar doenças importantes e expor pacientes a riscos evitáveis”, alerta.

Ela resume: “Os IBPs são seguros quando usados na dose certa, pelo tempo certo e com indicação correta. Não são vilões, mas também não devem ser tratados como medicamentos inofensivos.”

Segundo a especialista, informação de qualidade é fundamental. “O alarmismo gera medo e leva pessoas a abandonarem tratamentos eficazes. A boa ciência orienta, não assusta.”