A I Festa Literária de Malhada de Pedras recebeu, nesta última semana, uma mesa de conversa acadêmica sobre as raízes e desdobramentos da literatura baiana, tendo como fio condutor as obras de João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado. Com mediação da professora Irene Nunes, a professora Dra. Maria Angélica Fernandes (UNEB) e professor Dr. Lecco França (UESC) trouxeram análises sobre como esses autores traduziram a identidade baiana em suas narrativas, além de discutirem o papel da universidade, do cinema e das expressões culturais na perpetuação dessa “baianidade”.
A Bahia além dos cartões-postais: sociedade, linguagem e resistência

A professora Maria Angélica Fernandes abriu a conversa destacando como a literatura baiana dialoga com múltiplas linguagens – da culinária ao falar regional –, construindo uma narrativa que vai muito além dos estereótipos, ressaltando que a Bahia vendida no cartão-postal muitas vezes não é a Bahia real e Jorge Amado e João Ubaldo capturaram essa complexidade, mostrando uma terra de contradições, mas também de diversidade e luta, afirmou.
A professora ainda criticou a forma reducionista como o estado é visto em outras regiões do país citando momentos que, em seu doutorado, até a forma de falar era criticada e desvalorizada. “É preciso ler os autores baianos para entender a diversidade baiana – como Itamar Vieira Junior, com a Chapada Diamantina, ou o próprio João Ubaldo, que eternizou Itaparica”. Sobre o falar baiano, ressaltou sua importância nos cursos de Letras: “Nossa forma de falar é literatura viva. Não abro mão do meu ‘E’ aberto ou das expressões que formam quem eu sou”.
Já o professor Lecco França enfatizou o papel das universidades baianas na educação e na difusão da literatura regional. “Eventos como este aproximam a universidade do povo. A feira literária é uma ponte que aproxima o público as universidades”, disse. Ele também defendeu a valorização do professor-pesquisador e a necessidade de se olhar para a literatura regional contemporânea: “Existem muitas ‘Bahias’ dentro da Bahia. Salvador é a capital, mas o interior tem culturas diferentes. Precisamos conhecer antologias e novos autores que estão apresentando essas Bahias dentro do estado”. Sobre a literatura oral, destacou a importância cultural do cordel e das histórias orais.
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Um dos momentos mais ricos da discussão foi a reflexão sobre a relação entre cinema e literatura baiana. Maria Angélica citou a Lei nº 13.006/2014, que incentiva exibições cinematográficas nacionais em escolas: “O cinema é cultura popular e deve ser tratado como tal. Adaptações como Ainda estou aqui mostram como a literatura impulsiona o nosso cinema”. Lecco complementou com uma crítica à influência estadunidense no imaginário brasileiro: “Nosso cinema é diferente, mas não é inferior. Enquanto eles priorizam o espetáculo, o cinema nacional nos representa e provoca questionamentos e reflexões. Precisamos valorizar isso desde a escola”.
Para representação baiana na formação dos jovens, a professora destacou que “a literatura baiana pode influenciar nossos alunos mais jovens através dos filmes, porque eu acredito que eles leem pouco, produções de Jorge Amado, Dias Gomes e Itamar Vieira Junior, por exemplo, acabam fomentando o impresso literário muito por conta das adaptações teatrais ou fílmicas. Agora estamos vendo a reapresentação de Tieta, temos também o filme ‘Dona flor e seus dois maridos’, ‘Capitães de Areia’ com meninos de rua, inúmeras adaptações de ‘Gabriela’. Tudo isso acaba proporcionando a ido do leitor jovem para literatura impressa.”
Já para o professor “Jorge Amado e João Ubaldo foram essenciais para apresentar uma presença da personalidade baiana, com personagens que não eram muito comuns na literatura brasileira até então. Personagens negros, indígenas, personagens que estão no contexto de marginalidade social, a obra desses dois autores, para além dessas questões sociais ainda têm um grau de atualidade, acho que elementos de identificação do público jovem com esses elementos está nos personagens, mas para além das obras é preciso pensar na linguagem mais simples e que trazem o contexto da cultura popular, então acredito que esses aspectos já aproximam a literatura ao público jovem.”
Os professores reforçaram que a literatura baiana – seja na prosa de Jorge Amado, na ironia de João Ubaldo ou nas vozes emergentes do interior – é um convite permanente à descoberta.
