Uma série de documentos internos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) aponta um crescimento acelerado e fora do padrão nas operações de crédito consignado ligadas ao Banco Master, por meio do Credcesta. Os dados mostram que o número de contratos saltou de cerca de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024, um aumento superior a 2.500% em apenas dois anos.
As informações foram consolidadas pela Dataprev e passaram a ser analisadas pela Divisão de Consignação em Benefícios do INSS, que abriu apuração para verificar se as contratações ocorreram dentro das regras. O instituto identificou indícios de irregularidades e um padrão de desconformidades nas operações, o que elevou o alerta sobre possíveis prejuízos a aposentados e pensionistas.
Apesar do volume expressivo, o próprio INSS afirma não conseguir confirmar a abrangência completa dos contratos, nem detalhar os valores descontados. Há também dúvidas sobre a exclusividade da bandeira Credcesta, embora pessoas próximas à operação afirmem que o produto sempre esteve vinculado ao Banco Master.
Especialistas do setor ouvidos pela reportagem consideram o crescimento atípico, já que o banco não teria estrutura para alcançar milhões de contratos no segmento, dominado por grandes instituições financeiras. Dados mais recentes indicam que, ao fim de 2025, havia cerca de 324 mil contratos ativos ligados ao Master dentro do INSS, número bem inferior ao apontado anteriormente.
O modelo de benefício consignado, criado em 2018 e posteriormente ampliado para aposentados e pensionistas, permite acesso a crédito com desconto direto no benefício, incluindo saques, cartão de compras e serviços adicionais. A modalidade se expandiu nacionalmente após mudanças legais que autorizaram sua aplicação no âmbito federal.
As operações do Master passaram a ser alvo de investigação após denúncias de fraudes em carteiras de crédito consignado. Em novembro, executivos ligados ao banco foram presos pela Polícia Federal, e a instituição entrou em processo de liquidação decretado pelo Banco Central. O acordo de cooperação com o INSS já havia sido encerrado meses antes.
Entre 2020 e 2024, foram registradas mais de 3,3 mil reclamações de beneficiários relacionadas ao banco, envolvendo dificuldades para cancelar contratos, cobranças indevidas e empréstimos não reconhecidos. O INSS aponta indícios de falhas estruturais e possível descumprimento de normas, como autorização expressa e autenticação dos clientes.
Diante do cenário, o instituto defende cautela e aprofundamento das investigações. O Ministério Público Federal também entrou no caso e recomendou prioridade na reparação de aposentados e pensionistas prejudicados por descontos indevidos, enquanto um inquérito civil público apura suspeitas de fraude nas operações de crédito consignado.
