A recente decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros importados a partir de 1º de agosto gerou forte reação do setor produtivo e de autoridades no Brasil. Em entrevista exclusiva ao Notícias da Bahia, o economista Edval Landulfo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), classificou a medida como uma taxação política e econômica, mas não como as pessoas imaginam.
Segundo ele, a justificativa apresentada pela Casa Branca é frágil: “É muito fraca essa justificativa do presidente norte-americano. Ele já vinha pensando nessa taxação desde a reunião que o Brasil teve no BRICS”, afirmou Landulfo.
Geopolítica por trás do tarifaço
O economista acredita que a medida está diretamente relacionada à mudança no equilíbrio global de poder, especialmente após o fortalecimento do BRICS com a entrada de novos países.
“Hoje o BRICS já supera os 30% das negociações internacionais, isso tem um peso grande para a hegemonia global que os Estados Unidos ainda tenta se manter”, explicou.
Para ele, o movimento é também uma resposta à tentativa de desdolarização dentro do bloco promovida por Rússia e com aval da China: “A China já vem pedindo passagem há praticamente uma década. É a chegada da hora da China como novo país hegemônico”, pontuou.
Landulfo também criticou o que considera um “tarifasso sem fundamento técnico”: “Eu não sei se foi produzido realmente por um economista ou por um assessor sem informação alguma. Em pleno século XXI, você sai taxando todo mundo pensando que vai obter vantagens competitivas? Justificativas assim são bem complicadas”.
Setores afetados: da carne ao cacau
Sobre os impactos no Brasil, especialmente na Bahia, o economista diz que os efeitos de curtíssimo prazo podem causar transtornos logísticos e de comercialização, mas que há alternativas. “Claro que qualquer anúncio de uma medida econômica causa preocupação. Produtos que estavam no porto para embarcar podem ficar encalhados, isso gera estresse”, disse.
Mesmo assim, ele defende uma visão de médio e longo prazo. “É igual a investimento: a gente não pode colocar toda a nossa renda em um único ativo. Tem que diversificar. O Brasil exportou 36% ao BRICS e importou 34%, gerando superávit. Ou seja, há espaço para realocação”, avaliou.
Na Bahia, setores como a indústria petroquímica, a celulose, pneus, manteiga, e o licor de cacau estão no radar dos possíveis prejudicados. “Esse segmento precisa de uma conversa para entender o impacto e achar soluções”, disse.
Alternativas viáveis e mercado interno fortalecido
Para Landulfo, o momento exige agilidade diplomática e estratégica. “Há sim alternativas que têm que ser costuradas. Tem que sentar com os empresários e os governos estaduais para abrir novos mercados”, defendeu.
Ele também vê um possível impacto positivo para o consumidor brasileiro. “Se eu não tenho como exportar café, ele será colocado no mercado interno. Com maior oferta, tende a baratear o preço. Pode ser ruim para o produtor, mas o povo sai beneficiado”, avaliou.
Ação do governo Lula é “correta”
O economista considera acertada a decisão do governo federal de acionar a Lei da Reciprocidade para responder às sanções dos EUA. “Sim, o Brasil está correto em acionar a lei. Temos uma soberania em relação às nossas decisões internas, sejam políticas e/ou judiciárias. Se não nos tratam bem, temos que resistir e pagar na mesma moeda”, declarou.
Segundo ele, o país não pode se curvar “aos caprichos de qualquer lunático que sai por aí querendo o mundo”.
Perda de mercado? Pouco provável
Apesar das tensões comerciais, Landulfo acredita que os produtos brasileiros continuarão competitivos e desejados no mercado norte-americano. “Nosso café, por exemplo, tem qualidade excepcional e é muito valorizado. O suco de laranja também, ainda mais com as perdas nos EUA por doenças nas plantações”, explicou.
Ele alerta, porém, que o Brasil deve manter firmeza nas negociações para não abrir brechas a pressões futuras: “O que o Brasil não pode é ceder agora. Se cedermos, vamos ter que ceder em outro momento. E aí sim podemos enfrentar embargos como os que ocorrem no Irã, Cuba e Venezuela”.
