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Vandalismo a monumentos públicos causa prejuízo e exige trabalho em manutenção e restauro

Vandalismo a monumentos públicos causa prejuízo e exige trabalho em manutenção e restauro
Foto: Divulgação / FGM

Os atos de vandalismo a monumentos e equipamentos históricos de Salvador colocam em risco a memória artística e histórica da cidade e causam um grande prejuízo aos cofres públicos. Nos anos de 2025 e 2026, a Prefeitura, por meio da Fundação Gregório de Mattos (FGM), gastou cerca de R$ 945 mil com ações de restauro e recuperação de monumentos públicos, grande parte devido ao vandalismo.

Um dos principais casos foi a depredação do monumento construído em homenagem a Vinícius de Moraes, na praça em frente à casa onde o poeta morou na década de 1970, em Itapuã, e onde escreveu clássicos, como “Tarde em Itapuã”. A peça tem recebido recorrentes ações de vandalismo.

Dias após sua restauração, realizada no ano passado, notou-se, durante nova vistoria, o pulso e antebraço da escultura serrados durante uma tentativa de furto. Além disso, danos também houve danos em partes da cadeira. Com isso, a prefeitura deve realizar um novo investimento para a recuperação da obra.

Recentemente, outro caso chamou a atenção devido à recorrência dos atos criminosos. A Estátua Gandhi Andante, em referência ao líder pacifista indiano Mahatma Gandhi, situada na Praça da Inglaterra, no Comércio, teve os óculos furtados. A FGM já havia elaborado um orçamento para a restauração; no entanto, a estátua sofreu novos danos antes do início da restauração. Com isso, foi preciso fazer um aditivo contratual.

Manutenção e restauro

Algumas das peças restauradas em 2025 e no início deste ano foram o monumento à Sereia Yemanjá, no Rio Vermelho; os equipamentos do Caminho da Fé, na Cidade Baixa; o monumento a Dodô e Osmar, na Praça Castro Alves; o monumento ao Padre Manoel da Nóbrega, no Centro Histórico de Salvador; a Sereia de Itapuã; o monumento a João Ubaldo Ribeiro, na Pituba; o monumento a Gregório de Mattos, na Praça Castro Alves; o monumento a Nelson Mandela, na Liberdade, o Medalhão Dupla Face Mãe Caetana (Mãe Preta), na Estrada do Curralinho; e o monumento à Mãe Stella de Oxóssi, em Stella Maris.

Ainda estão em processo de restauração a estátua Gandhi Andante, no Comércio; o monumento aos heróis da Conjuração Baiana e a Fonte, ambos na Praça Piedade; os monumentos ao 2 de Julho, no Campo Grande; e o acervo do Benin, que compõe a Casa do Benin, no Centro Histórico. No ano passado, os valores empreendidos na manutenção e restauro de cada peça variaram entre R$ 3 mil e R$ 200 mil.

O trabalho acontece a partir do monitoramento contínuo promovido pela Gerência de Patrimônio Cultural da FGM, que realiza vistorias técnicas e ações de fiscalização periódicas nos monumentos da cidade. Também acontecem os serviços de reparação e manutenção com apoio da Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal) e da Secretaria Municipal de Manutenção (Seman).

Os monumentos históricos da capital baiana são restaurados, em sua maioria, pelo pesquisador e artista José Dirson Argolo, professor do curso de Artes Plásticas da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e especializado em restauração de obras de arte. Outras obras são restauradas pelos artistas que as fizeram, a exemplo do Caminho da Fé, cuja recuperação foi realizada pelo ateliê do próprio Juarez Paraíso.

Valorização da memória

O professor e historiador Murilo Mello destaca a importância dos monumentos para a preservação da memória e identidade cultural da cidade. “São peças importantes para todos, para a cidade como um todo, para a memória e identidade baiana. E cada peça, em si, representa um grupo ou parte da história da cidade. A estátua de Mãe Stella, por exemplo, incendiada em 2022, representa o povo de candomblé; então o vandalismo a essas obras é um ato de profanação ao todo, mas também a um grupo em específico”, diz.

Murilo explica que a cidade construiu os seus primeiros monumentos a partir de uma inspiração francesa, principalmente. “A França inaugura no mundo essa onda de estátuas, de monumentos, de representatividade, sobretudo no final do Século XIX”.

“A depredação é um desrespeito com o coletivo e com o Estado e acaba gerando gastos que poderiam ser direcionados, até mesmo em ações sociais que poderiam retornar à própria pessoa que pratica esse ato. Mas falta essa consciência. São pessoas que vivem à margem da sociedade”, acrescenta o historiador.

Romário Almeida, presidente do Conselho Municipal de Política Cultural, lembra que Salvador é uma cidade com um relevante valor histórico e cultural para o Brasil e o Atlântico Negro. “Isso faz com que a preservação dos seus patrimônios materiais e imateriais seja um grande desafio. Nesse sentido, estamos avançando em algumas frentes, como a demarcação das contribuições negras na cidade, mas ainda há muito a se fazer. A salvaguarda desses patrimônios pode e deve ser proporcional ao tamanho dos tesouros que a cidade tem”, diz.

Patrulhamento e denúncias

Segundo o inspetor-geral da Guarda Civil, Marcelo Silva, o trabalho do órgão por toda a cidade inclui a preservação do patrimônio público. Com o objetivo de dinamizar as ações de patrulhamento e combate ao vandalismo, a autarquia adotou um canal de Whatsapp para denúncias.

“A Guarda Civil Municipal intensificou as rondas preventivas para coibir o vandalismo, e agora, também disponibilizamos um número exclusivo para denúncias via WhatsApp: (71) 99623-4955. A população pode enviar relatos em texto, áudios de até 30 segundos ou fotos, ajudando a combater furtos e atos contra o patrimônio público e a proteger nossas riquezas culturais”, ressalta o inspetor-geral.

De acordo com o Código Penal, destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia é crime sujeito à pena de detenção ou multa. Se o crime for contra o patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviços públicos, a pena pode chegar a até três anos, com multa.