Um ato interreligioso com representantes das religiões de matriz africana, evangélica, católica e muçulmana, nesta quarta-feira (14), marcou o início das escavações no estacionamento da Pupileira, no bairro de Nazaré, em Salvador. O local pode abrigar o maior cemitério de escravizados da América Latina, segundo a arquiteta e pesquisadora Silvana Olivieri, que estima que até 100 mil pessoas tenham sido enterradas ali, incluindo líderes da Revolta dos Malês, prostitutas, indigentes e excomungados. A data escolhida é simbólica: completam-se 190 anos da execução dos líderes do levante dos Malês, de maioria muçulmana.
A promotora de Justiça Lívia Vaz destacou a importância histórica do local e ressaltou que os corpos foram enterrados sem rituais fúnebres. “Se confirmado, este pode ser o maior cemitério de pretos novos da América Latina”, afirmou. As escavações buscam recuperar a memória de vítimas da escravidão, apagadas da paisagem urbana desde o fechamento do cemitério em 1844. O espaço, que funcionou por cerca de 150 anos, teria sido administrado pela Câmara Municipal e depois pela Santa Casa de Misericórdia da Bahia.
O jurista Samuel Vida destacou a profundidade simbólica do momento. “Estamos falando de um cemitério oculto no centro da cidade, onde hoje funcionam uma faculdade, locais de eventos e onde ninguém sabia o que havia ali”, afirmou. Ele apontou que o apagamento da memória da escravidão ainda molda o presente brasileiro. A descoberta pode gerar um novo ciclo de pesquisas arqueológicas sobre a diáspora negra nas Américas e ajudar a resgatar identidades até hoje esquecidas.
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As escavações foram viabilizadas por um acordo mediado pelo Ministério Público da Bahia (MPBA), envolvendo promotores de Justiça, pesquisadores e a Santa Casa de Misericórdia da Bahia. O termo de cooperação, com validade de 120 dias, tem como objetivo identificar, preservar e estudar vestígios materiais do que pode ter sido o primeiro cemitério público de Salvador. O promotor Alan Cedraz frisou que o ato interreligioso teve o papel de “sacralizar” o espaço e dar início a um processo de reparação histórica e reconhecimento das vítimas da escravidão.
