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Como a mídia dos EUA cobriu o conflito na Faixa de Gaza, parte III

Foto Ahmad Hasaballah

Conteúdo do Intercept Brasil – Foto Ahmad Hasaballah

Escrito por Adam Johnson e Othman Ali

Crianças e Jornalistas

Apenas duas manchetes dentre as mais de 1,1 mil matérias jornalísticas analisadas mencionam a palavra “crianças” em relação às crianças de Gaza.

Em uma exceção memorável, o New York Times publicou no final de novembro uma matéria de primeira página sobre o ritmo histórico dos assassinatos de mulheres e crianças palestinas, embora nenhum dos dois grupos aparecesse na manchete.

Embora a guerra de Israel em Gaza seja talvez a mais mortal na história moderna para as crianças, quase todas palestinas, são raras as menções à palavra “crianças” e termos relacionados nas manchetes dos artigos pesquisados pelo Intercept.

Enquanto isso, as autoridades de Gaza reportaram mais de 6 mil crianças mortas no momento da trégua, e o número atualmente chega a 10 mil.

Guerra de Israel em Gaza pode ser a mais mortal para crianças, mas elas raramente são mencionadas em manchetes. E enquanto a guerra em Gaza tem sido uma das mais mortíferas na história moderna para os jornalistas, principalmente palestinos, a palavra “jornalistas” e suas iterações, como “repórteres” e “fotojornalistas”, só aparece em nove manchetes dos mais de 1,1 mil artigos estudados.

Aproximadamente 48 repórteres palestinos já haviam sido mortos por bombardeios israelenses na época da trégua; atualmente, o número de jornalistas palestinos mortos passa de 100. Apenas quatro entre nove artigos contendo as palavras jornalista/repórter se referiam a repórteres árabes.

A falta de cobertura sobre o assassinato sem precedentes de crianças e jornalistas, grupos que tradicionalmente atraem a simpatia dos meios de comunicação ocidentais, é evidente.

A título de comparação, mais crianças palestinas morreram na primeira semana do bombardeio em Gaza do que durante todo o primeiro ano da invasão da Rússia na Ucrânia, e, no entanto, New York Times, Washington Post e Los Angeles Times publicaram diversas matérias pessoais, favoráveis, destacando a situação das crianças durante as seis primeiras semanas da guerra na Ucrânia.

A já mencionada matéria de primeira página do New York Times e uma coluna do Washington Post foram raras exceções à escassez de cobertura sobre as crianças palestinas.

Assim como no caso das crianças, New York Times, Washington Post e Los Angeles Times se detiveram sobre os riscos aos jornalistas na guerra da Ucrânia, e publicaram várias matérias detalhando os perigos de cobrir a guerra durante as primeiras seis semanas após a invasão russa.

Seis jornalistas foram mortos nos primeiros dias da guerra na Ucrânia, em comparação aos 48 mortos durante as seis primeiras semanas do bombardeio de Israel em Gaza.

A assimetria na cobertura sobre as crianças é qualitativa, além de quantitativa. Em 13 de outubro, o Los Angeles Times publicou uma matéria da Associated Press que dizia: “O Ministério da Saúde de Gaza declarou na sexta-feira que 1.799 pessoas foram mortas no território, incluindo mais de 580 menores de 18 anos e 351 mulheres. O ataque do Hamas no último sábado matou mais de 1,3 mil pessoas em Israel, incluindo mulheres, crianças e jovens participantes do festival de música”.

Observe-se que os jovens israelenses são chamados de crianças, enquanto os jovens palestinos são descritos como menores de 18 anos.

Durante as discussões sobre troca de prisioneiros, a frequente recusa em se referir aos palestinos como crianças foi ainda mais dura e, em um caso específico, o New York Times se referiu a “mulheres e crianças israelenses” sendo trocadas por “mulheres e menores palestinos”.

As crianças palestinas são chamadas de “crianças” posteriormente na matéria, ao resumir as conclusões de um grupo de defesa de direitos humanos.

Uma matéria do Washington Post de 21 de novembro anunciando um acordo de trégua apagou completamente as mulheres e as crianças: “O presidente Biden declarou em um comunicado na noite de terça-feira um acordo para libertar 50 mulheres e crianças mantidas reféns pelo Hamas em Gaza, em troca de 150 prisioneiros palestinos detidos por Israel”.

O documento não menciona mulheres e crianças palestinas em momento algum.