Início Brasil Cresce número de mortes infantis Yanomami durante avanço do garimpo, diz Unicef

Cresce número de mortes infantis Yanomami durante avanço do garimpo, diz Unicef

Unicef pede ações integradas para proteger infância - Foto: EBC TV/Reprodução

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com a Hutukara Associação Yanomami (HAY), divulgou nesta quarta-feira (15) um relatório sobre os efeitos da atividade garimpeira ilegal na Terra Indígena Yanomami. O documento destaca os impactos na saúde, alimentação, segurança e modo de vida das crianças e adolescentes do povo Yanomami.

Entre 2019 e 2022, período de maior presença do garimpo ilegal na região, foram registradas pelo menos 570 mortes de crianças Yanomami por doenças evitáveis e tratáveis, como desnutrição, malária, pneumonia e infecções parasitárias. O relatório associa esses dados à degradação ambiental, ao colapso no atendimento em saúde e à presença de grupos ilegais nos territórios indígenas.

O povo Yanomami vive em cerca de 390 comunidades distribuídas por 9,6 milhões de hectares nos estados do Amazonas e de Roraima. Com cerca de 31 mil pessoas, a Terra Indígena Yanomami é a maior do Brasil. A ocupação por garimpeiros, segundo o relatório, resultou na contaminação dos rios por mercúrio, na dificuldade de manutenção das roças e na interrupção de práticas tradicionais de caça e coleta.

De acordo com dados de 2022, mais da metade das 4.245 crianças Yanomami acompanhadas pelo sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional estavam com peso abaixo do recomendado. Entre 2019 e 2022, foram registrados mais de 21 mil casos de malária entre crianças de até cinco anos. No mesmo período, 47 mortes infantis foram atribuídas à doença. Doenças respiratórias causaram 187 mortes de crianças entre 2018 e 2022. O documento também aponta queda na cobertura vacinal, que passou de 82% em 2018 para 53% em 2022.

O uso de mercúrio no garimpo ilegal também foi identificado como fonte de contaminação nos rios Uraricoera, Parima, Catrimani e Mucajaí. Laudo da Polícia Federal de 2022 apontou que a presença da substância ultrapassa em 8.600% o limite considerado seguro para consumo humano. O mercúrio pode afetar o sistema nervoso central e causar danos ao desenvolvimento de crianças, inclusive com riscos de má formação fetal e problemas neurológicos.

O relatório também descreve situações de exploração de adolescentes e jovens Yanomami no contexto do garimpo. Foram relatados casos de cooptação por meio de dinheiro, armas, drogas e bebidas alcoólicas, além de relatos de exploração sexual de meninas em troca de comida ou pagamento.

Segundo o estudo, 75% da população Yanomami é composta por pessoas com menos de 30 anos. A pesquisa destaca que essa proporção exige atenção específica às necessidades de crianças, adolescentes e jovens, incluindo acesso à saúde, educação e participação social.

O documento defende que a proteção do território Yanomami é uma condição para a garantia dos direitos das populações indígenas. Entre as recomendações, estão o fortalecimento das políticas públicas com participação das organizações Yanomami, a ampliação do acesso à escolarização e a oferta de serviços básicos como água potável e atendimento de saúde.

Desde que o governo federal declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional no território, em 2023, foram realizadas mais de 7.400 ações integradas de combate ao garimpo. O número de profissionais de saúde foi ampliado, e unidades de atendimento foram reabertas ou inauguradas.

O relatório foi lançado às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em Belém (PA), com foco na região amazônica.