João Carlos Mansur, ex-dono da Reag Investimentos, entregou sua proposta de delação premiada à Procuradoria-Geral da República. O documento amplia o envolvimento financeiro de ACM Neto (União Brasil) com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, e cujo dono, Daniel Vorcaro, segue preso sob acusação de lavagem de dinheiro.
Até o momento, a relação do candidato ao governo da Bahia com o banco era amplamente conhecida como a de prestador de serviços. Sua empresa, a A&M Consultoria, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag entre o fim de 2022 e maio de 2024, de acordo com relatórios do Coaf. Apesar disso, a delação de Mansur aponta que Neto era, ao mesmo tempo, investidor em produtos originados pelo próprio banco.
De acordo com a coluna de Natália Portinari, do UOL, Neto é dono exclusivo do fundo Seattle 95, gerido pela Reag até 2025. Desse modo, o candidato aplicou cerca de R$ 4,8 milhões no fundo Structure, lastreado em empréstimos consignados originados pelo Banco Master.
ACM Neto aportou R$ 7,92 milhões no fundo em dez depósitos. Em outubro do ano passado, o patrimônio havia alcançado R$ 11,94 milhões, um ganho de R$ 4,01 milhões, com rendimento médio de 17% ao ano. Este número é bem maior que o de investimentos tradicionais.
Master e Reag
O destino das duas empresas com as quais o candidato manteve relação financeira foi o mesmo. Além do Master, a Reag também passou por liquidação extrajudicial em janeiro deste ano, por graves violações às normas do sistema financeiro. Anteriormente, a gestora se tornou alvo da Operação Carbono Oculto, que apurou o uso de seus fundos para lavagem de dinheiro do crime organizado, e da Operação Compliance Zero, sobre as fraudes do Master.
As aplicações do fundo de Neto no Structure prosseguiram até julho de 2025. Nesse momento, as duas operações já haviam sido deflagradas.
A dupla relação com o grupo se soma a outro dado tornado público em julho. Neto declarou R$ 85 milhões ao TSE, mais que o dobro do patrimônio informado em 2022, com salto impulsionado por aplicação de R$ 9 milhões em fundos da Planner. Essa corretora, porém, é investigada pela Polícia Federal por suspeita de servir de fachada para operações irregulares ligadas ao Master.
A Reag é suspeita de criar negócios de fachada para esconder calotes e lavar dinheiro. Quase todo o investimento do fundo de ACM Neto, cerca de 98%, teve aplicação em único negócio ligado ao Banco Master, operação considerada incomum no mundo dos negócios. A polícia deve, portanto, investigar se o fundo de ACM Neto foi usado ou beneficiado pelo esquema. Além disso, é necessário observar se o lucro obtido veio de operações normais de mercado ou se teve relação com as manobras do banco.
