
A Secretaria de Esportes de São Paulo, na gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), não conseguiu identificar o destino de R$ 23 milhões em materiais adquiridos pela pasta. A inconsistência foi revelada após inventário exigido pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), que apontou falhas no controle de estoque e divergências nos registros.
De acordo com o levantamento, notas de empenho indicam compras de R$ 51,5 milhões, enquanto os itens localizados fisicamente somam R$ 16,7 milhões. Após buscas internas, a secretaria conseguiu rastrear outros R$ 11,5 milhões, parte deles referentes a materiais doados a escolas, entidades, municípios e competições esportivas. Ainda assim, permanece sem identificação um montante de R$ 23 milhões.
A divergência foi inicialmente apontada no início de 2025, durante análise das contas da pasta, quando o TCE-SP identificou inconsistências entre os registros do almoxarifado e os dados do sistema Siafem. A fiscalização também destacou a ausência de controle de estoque que permitisse a realização de inventário físico, em desacordo com a legislação. Mesmo com as falhas, o conselheiro Sidney Estanislau Beraldo votou pela aprovação das contas, com recomendação de correções.
Em abril de 2025, a então secretária Helena Reis determinou a criação de uma comissão de inventário. Em junho, o grupo identificou uma discrepância de R$ 34,7 milhões entre os materiais encontrados em três endereços ligados à secretaria e os valores registrados nas notas de empenho. O relatório apontou “falta de zelo” e desorganização no armazenamento, com registros de caixas abertas e itens empilhados, além da inexistência de controle físico e contábil do estoque.
A comissão solicitou documentos que comprovassem a destinação de materiais, especialmente doações, mas recebeu resposta de apenas uma servidora. Diante das falhas, em julho, o então secretário-executivo José Ribeiro Lemos Junior cobrou providências e determinou a apresentação de um plano de ação, que não foi entregue. Em outubro, ele ordenou a criação de uma equipe específica para apurar o rombo identificado.
Em dezembro, o subsecretário de gestão corporativa Marcelo Nanya informou a localização de R$ 11,5 milhões em materiais. Em despacho, apontou dificuldades na identificação e correlação entre itens físicos, registros de estoque e notas de empenho e afirmou que, por essas limitações, o valor restante de R$ 23 milhões não poderia ser considerado para fins de apuração.
Procurada, a secretaria afirmou que determinou “a implementação de medidas aprimoradas de controle, rastreamento e gestão patrimonial” e que elabora “um relatório de análise preliminar que subsidiará” a abertura de sindicância. O órgão também declarou compromisso com a correta aplicação dos recursos públicos e com a transparência.
No início de 2026, José Ribeiro Lemos Junior e Marcelo Nanya foram exonerados. Segundo relatos de bastidores, a saída do então secretário-executivo ocorreu em meio à pressão interna pela apuração das inconsistências identificadas no inventário.