O plano de paz para Gaza proposto pelo governo do presidente norte-americano Donald Trump conseguiu estabelecer um cessar-fogo, mas sua natureza deliberadamente vaga deixa grandes dúvidas sobre sua implementação e durabilidade. Especialistas descrevem para o DW Notícias, o acordo como indefinido, uma característica que pode ter sido necessária para fazer com que o Hamas e o governo de direita de Israel concordassem com a trégua inicial. A falta de clareza em pontos cruciais, no entanto, alimenta o temor de um retorno dos combates.
Questões críticas como a desmilitarização completa de Gaza, o papel de uma “força internacional de estabilização” e as intenções de longo prazo do governo israelense permanecem em aberto. “O fato de Israel e o Hamas terem concordado com a primeira fase de um plano de cessar-fogo é um primeiro passo importante”, diz Hugh Lovatt, pesquisador do Conselho Europeu de Relações Exteriores. “No entanto, é muito cedo para falar em paz e ainda há questões e preocupações significativas que precisam ser abordadas. A chave é se os planos podem realmente ser implementados e se ambos os lados cumprem sua parte.”
A retirada total das tropas israelenses é um dos pontos mais sensíveis. O acordo estabelece fases de recuo militar, condicionadas à libertação de reféns e ao desdobramento de uma força internacional, mas não define um cronograma claro. A retirada final deixaria Israel controlando uma ampla zona-tampão dentro de Gaza, o que, segundo organizações de direitos, significaria a anexação de facto de cerca de 17% do território e a destruição permanente de comunidades e terras agrícolas.
A proposta de uma “força internacional de estabilização” também enfrenta obstáculos. A menos que haja um apoio claro dos elementos palestinos no terreno, incluindo o Hamas que se opõe à ideia, é difícil imaginar que nações árabes estejam dispostas a enviar tropas. O Egito chegou a sugerir a inclusão de soldados americanos, mas até agora não há sinal de que os EUA pretendem enviar contingentes para dentro de Gaza.
O futuro do Hamas e a garantia de cumprimento do acordo são outras incógnitas. Embora o plano fale em desmilitarização, não há detalhes sobre como isso será feito, dando margem para protelações. Especialistas alertam que, sem uma pressão contínua dos EUA, o plano pode fracassar. “Para realmente quebrar essa dinâmica, os EUA precisarão exercer pressão contínua sobre Israel”, apontam analistas, temendo que o governo Trump possa se distrair ou se cansar do processo, levando a um colapso do frágil cessar-fogo.
