O soteropolitano Acelino “Popó” Freitas está prestes a escrever mais um capítulo de uma carreira marcada por títulos mundiais, nocautes e desafios improváveis. Perto de completar 50 anos, o tetracampeão mundial de boxe sobe ao ringue no dia 27 de setembro para enfrentar o ex-lutador de MMA Wanderlei Silva, conhecido como “Cachorro Louco”.
A luta será realizada pelo Spaten Fight Night, em São Paulo, e marca a estreia de Wanderlei no boxe.
Em entrevista exclusiva ao Notícias da Bahia, Popó não economizou nas palavras ao comentar o confronto. O baiano falou sobre os riscos de encarar um adversário mais pesado e oriundo do MMA, a preparação física para continuar competitivo na elite da luta, além de provocar o rival, prometendo “inteligência e murro na cabeça”.
“Quanto mais pesado, melhor para mim”
Questionado sobre os riscos de enfrentar um rival com mais peso e acostumado ao octógono, Popó admite que há imprevisibilidade, mas garante que o fator físico não o assusta.
“Risco qualquer luta tem, independente se ele for de outra modalidade ou não. Pode ser que ele não me derrube com um soco, mas pode ser que ele me desequilibre pelo peso corporal que ele tem”.
“Mas também eu tenho uma vantagem muito boa pelo fato de ser mais leve, movimentar muito mais, e isso confunde o adversário. Quanto mais ele estiver pesado, pra mim pode ser até melhor. Ele acha que vai ter mais pancada porque é mais pesado, mas nem sempre é assim. O cara que ganha a luta por nocaute é porque é genética, não é o peso que vai fazer a mão ficar pesada”.
Popó reforça que a luta será em um terreno em que ele é especialista: o ringue de boxe.
“Só em saber que ele é do MMA e não está lutando no octógono, está lutando em um ringue de boxe onde eu fiz isso a minha vida toda, para mim já é uma vantagem muito grande. Agora é ser inteligente, fazer meu jogo e meter a mão nele. Para mim, sempre a primeira defesa é o ataque. E certeza absoluta que ele não vai ser o primeiro a atacar. Vamos para cima”.

“Boxe é esporte de pessoas inteligentes”
Conhecido pela agressividade nos tempos de Pride e UFC, Wanderlei Silva carrega o apelido de ‘Cachorro Louco’. Popó, porém, avisa que a estratégia não funcionará no boxe.
“Ele sempre foi agressivo, desde a época do Pride, por isso o nome ‘Cachorro Louco’. Só que boxe não é um esporte de louco, é um esporte de pessoas inteligentes”.
“Se ele for usar a loucura dele no boxe, certeza absoluta que ele não vai sobreviver. Ele já usando o pouco da inteligência que ele tem, ele não vai sobreviver, imagine usando a loucura. Então o que a gente vai fazer é isso mesmo, deixar ele louco pra deixar mais maluco ainda com murro na cabeça. E Bahia é isso, é murro na cabeça.”
Paixão que desafia o tempo
Próximo de completar 50 anos, Popó garante que a idade é apenas um número. O ex-campeão afirma que a paixão pelo boxe é o que o mantém competitivo e motivado a encarar rivais mais jovens ou mais pesados.
“Já era pra ter parado há muito tempo, mas o que me move é a paixão, o amor que eu tenho pelo esporte. No dia que eu chegar na academia e os meus sparrings forem melhores que eu, os meninos mais novos de 23, 24, 25 anos me quebrarem na porrada, certeza absoluta que eu paro de lutar”.
“Enquanto isso não acontece, eu continuo batendo em gente. Eu me cuido, treino com luvas adequadas, protetor de cabeça, coquilha, tudo com segurança. Quando a gente se cuida, 50 anos é só número”.
Com bom humor, o baiano ainda mandou um recado ao adversário:
“Wande, venha louco que eu vou inteligente. Um abraço”.
Orgulho da nova geração do boxe brasileiro
Além do desafio contra Wanderlei, Popó acompanha com entusiasmo o crescimento do boxe nacional. O Brasil conquistou um ouro e três pratas no Mundial de Boxe realizado este mês, com destaque para a campeã Rebeca de Lima e o baiano Isaías Ribeiro.
“A gente não pode citar só os três últimos medalhistas. Tivemos conquistas olímpicas e mundiais depois que eu ganhei meu primeiro título em 1999. Vários atletas olharam para mim e viram que, mesmo vindo do gueto, é possível mudar de vida através do boxe. Isso me deixa muito feliz, porque mostra que a nova geração tem oportunidades que antes não existiam”.
Esporte acima da política
Sobre o papel do esporte em um país politicamente dividido, Popó acredita que a luta ainda é um espaço de união.
“Graças a Deus, o esporte é de direita e de esquerda, todo mundo consegue se unir com o mesmo objetivo de ser vencedor. Não dependemos da política para sobreviver. Hoje o governo dá subsídios, Bolsa Atleta, algo que não existia no meu tempo. Espero que essa galera dê resposta não à política, mas ao povo brasileiro que está tão carente em ídolos.”
Próximos passos
“Agora estamos nessa luta no Spaten Fight Night. Fico muito feliz de estar aí, e ainda surgiram outros convites, até do pessoal da Netflix, querendo me dar uma luta internacional. Teve muitos convites bons também. Vamos ver o que Deus me aguarda. Com 50 anos, se realmente ele quer que eu pare, tudo bem. Mas eu sei que essa luta, pra mim, foi um grande aniversário.”
