Os escândalos são inegáveis, mas costuma-se reforçar o estigma de corrupção em empresas que já superaram um capítulo obscuro de suas histórias
Mesmo após colaborações, restituições bilionárias e programas de compliance, a mídia prefere associá-las à operação, como um rótulo indelével
Por André Moragas
Em um Brasil no qual a Operação Lava Jato tomou conta do debate público por mais de uma década, é crucial observarmos a evolução do discurso da imprensa sobre as empresas investigadas.
A crítica à corrupção é justa e essencial. No entanto, o que se nota é um viés que não apenas ignora os avanços reais das empresas, mas que parece, em algumas circunstâncias, desejar sua ruína. Este artigo não defende os desvios que ocorreram —eles são inegáveis e condenáveis—, mas questiona a forma como a cobertura da imprensa perpetua uma narrativa de destruição em vez de enxergar uma trilha de recuperação e reconstrução.
Uma das consequências já percebida é a queda no interesse por cursos de engenharia, resultando numa escassez de profissionais. Realidade que revela o abismo entre um passado, no qual a engenharia brasileira era motivo de orgulho e referência internacional, e um presente, no qual a imprensa insiste em reforçar o estigma de corrupção em empresas que superaram um capítulo obscuro de suas histórias.
É inegável que a Lava Jato expôs uma série de escândalos. Contudo, é fundamental lembrar que a própria imprensa já reconheceu que houve excessos na condução da operação. Mais preocupante é notar que, mesmo após colaborações, restituições bilionárias e implementação de programas de compliance pelas empresas, a mídia prefere fixar essas companhias à sua associação com a Lava Jato, como um rótulo indelével.
A recorrente inclusão de frases como “empresa X, que foi investigada pela Lava Jato” não é um mero detalhe; é uma saudação permanente à crucificação de entidades que estão batalhando para recuperar seu lugar no mercado. Comparando com empresas de outros países, que enfrentaram crises similares, nota-se uma diferença de abordagem. Enquanto lá as empresas puderam reerguer-se, aqui a insistência em relembrar velhos erros parece uma estratégia para manter a desgraça em destaque. Exemplos de empresas que sofreram crises por casos de corrupção aparecem em abundância na literatura empresarial.
Sem distinção de setores: varejo, indústria, comércio, financeiro. E em todos esses casos as companhias não sofrem com uma lembrança constante dos seus erros do passado.
A insistência da imprensa em manter esse estigma atualizado sobre as empresas de engenharia no Brasil reforça uma narrativa mais preocupada com o “caça-clique” do que com a sua realidade atual. Imagine se toda menção, a qualquer empresa e de qualquer setor, viesse acompanhada de um aposto lembrando seu pior momento? Por que, então, as empresas de engenharia, que hoje se esforçam para atuar de maneira ética e responsável, são designadas por seus erros passados enquanto outras não compartilham do mesmo tratamento?
Esse foco excessivo na degradação das empresas resulta em consequências devastadoras: destruição de empregos, paralisia de um setor crítico para o desenvolvimento do país e perda de know-how que levou anos para ser construído. Muitas das empresas que restaram após a tempestade da Lava Jato estão se esforçando para retornar ao seu patamar de atuação e seguir contribuindo com a inovação e a geração de empregos. No entanto, a narrativa frequentemente fica ancorada em uma visão superficial, que se recusa a reconhecer esse progresso.
Assim, é necessária uma evolução na maneira como a imprensa noticia tais temas. Em vez de narrativas que se alimentam do passado, deve haver uma busca que considere a evolução das circunstâncias e a real relevância das empresas de engenharia no Brasil atual. É um chamado à responsabilidade da mídia para que ela possa ser uma aliada na reconstrução e não mera espectadora da morte lenta de um setor vital para o país.
Só assim poderemos criar um ambiente no qual a justiça e a colaboração andem lado a lado, permitindo que as empresas se reergam e, ao mesmo tempo, que os erros do passado sejam adequadamente confrontados e corrigidos. O sucesso do Brasil depende, em grande parte, da capacidade de equilibrar a justificada crítica com a disposição de reconhecer um setor que, apesar das sombras do passado, ainda ilumina possibilidades de inovação e progresso.
Adré Moragas – Jornalista, é diretor de Comunicação da Andrade Gutierrez. Texto publicado originalmente na coluna Opinião da Folha de São Paulo
